segunda-feira, 30 de março de 2009

Leitura de Mundo

Adaptação do texto de Ângela Antunes
Coordenadora do Instituto Paulo Freire

Para Paulo Freire, a educação é um ato político. Jamais é neutra, porque, necessariamente, contém uma intencionalidade. A educação pressupõe escolhas, estejamos, ou não, conscientes delas. Dependendo das decisões, ou seja, das escolhas que fazemos, a educação que realizamos pode contribuir para melhorar nossa convivência e a realidade em que vivemos ou pode contribuir para deixar tudo como está.
Para Freire, educar é promover a capacidade de ler a realidade e de agir para transformá- la, impregnando de sentido a vida cotidiana. Para isso, a educação não pode se dar alheia ao contexto do educando, nem o conhecimento pode ser construído ignorando o saber que eles trazem. Daí a importância da leitura do mundo.
Desde seus primeiros escritos, Freire procurava uma teoria do conhecimento que possibilitasse a compreensão do papel de cada um no mundo e de sua inserção na história.
Ele estava preocupado em elaborar uma pedagogia comprometida com a melhoria das condições de existência das populações oprimidas. O conhecimento construído através do processo educativo, nessa perspectiva, tem a função de motivador e impulsionador da ação transformadora.
O ser humano deve entender a realidade como modificável e a si mesmo
como capaz de modificá-la. Sua pedagogia proporciona aos educandos a compreensão de que a forma de o mundo estar sendo não é a única possível. Ela revela como possibilidade tudo aquilo que a totalidade opressora apresenta como determinação.
Nesse processo de leitura e de releitura do mundo, de leitura, uma leitura mais crítica do mundo forma o sujeito, que constrói uma visão de mundo e que pode, a partir dessa visão, não apenas vê-lo, entendê-lo melhor, mas pode, assim fazendo, entender melhor como somos capazes de mudar o mundo pela nossa ação.
Nessa problematização, o educador desafia os educandos para que expressem de maneiras variadas o que pensam sobre diferentes dimensões da realidade vivida.
A localidade dos educandos é o ponto de partida para o conhecimento que eles
vão criando do mundo. A partir dela, uma “readmiração” da realidade inicialmente discutida em seus aspectos superficiais vai sendo realizada com uma visão mais crítica e mais generalizada.
Para Paulo Freire, o ser humano é “ser de relação”, caracterizado pela sua “incompletude”, “inacabamento” e pela sua condição de “sujeito histórico”. Os seres humanos “estão sendo”, são “seres inacabados, inconclusos”. Seres situados em e com uma realidade que, sendo igualmente histórica, é tão inacabada quanto eles, por isso passível de mudança, de transformação.
O ato de conhecer se dá na relação social e é o diálogo o mediador desse processo. Ele é, portanto, condição para o conhecimento.
Mas o diálogo, para o pensamento freiriano, não se dá automaticamente. Ele só existirá se forem garantidas algumas condições:



1. Amor
O diálogo exige uma profunda relação amorosa com o mundo e os homens. Não se trata de uma relação amorosa ingênua ou piegas, limitada à caridade, que humilha e não transforma. Paulo Freire fala de uma relação amorosa que implica comprometimento com a promoção da vida. Refere-se a um amor “armado” para que a esperança na mudança, a esperança na possibilidade de construir um mundo melhor, mesmo em condições adversas, não se esmoreça e alimente o permanente diálogo e compromisso.

2. Humildade
Outra condição que a relação dialógica impõe é a humildade. Não haverá diálogo entre educador e educando quando aquele se reconhecer como o único a possuir saber e este o que deverá recebê-lo. A humildade está presente no educador que se reconhece ser incompleto e inacabado (tendo sempre, portanto, algo a aprender) e reconhece que o educando também é portador de conhecimento, tendo, nesse sentido, algo a ensinar. “A pronúncia do mundo, com que os homens o recriam permanentemente, não pode ser um
ato arrogante.

3. Fé
A fé nos seres humanos é outra exigência da dialogicidade. “Fé no seu poder de fazer e de refazer. De criar e recriar. Fé na sua vocação de Ser Mais” (Freire, 1981: 95). Dialoga aquele que sabe da capacidade de o ser humano rever-se, reinterpretar-se, “renascer” a partir da compreensão sobre seu estar sendo no mundo e sobre seu próprio mundo.

4. Esperança
Sem a esperança, que nos estimula, dá sentido, movimenta nossas ações em direção ao projeto com o qual sonhamos, não pode haver diálogo. “Se o diálogo é o encontro dos homens para Ser Mais, não pode fazer-se na deseperança. Se os sujeitos do diálogo nada esperam do seu que fazer já não pode haver diálogo. O seu encontro é vazio e estéril” (Freire, 1981: 97). Dialogar em torno do quê, se não há projeto, se não há sonhos.

5. Pensar crítico.
Este é um pensar que percebe a realidade como processo, que a capta em constante devenir e não como algo estático” (Freire, 1981: 97), que a entende
como construção histórica e social, por isso, mutável. Não é possível, para Paulo Freire, que a leitura de mundo seja esforço intelectual que uns
façam e transmitam para outros. Ela é uma construção coletiva, feita com a multiplicidade das visões daqueles que o vivem. Transmitir ou receber informações não caracterizam o ato de conhecer. Conhecer é apreender o mundo em sua totalidade e essa não é uma tarefa solitária. Ninguém conhece
sozinho. O processo educativo deve desafiar o educando a penetrar em níveis cada vez mais profundos e abrangentes do saber.




6. Problemática
Nisso se constitui uma das principais funções do diálogo, que se inicia quando o educador busca a problemática significativa dos educandos, procurando conhecer o nível de percepção deles em relação ao mundo vivido.
É do conhecimento do nível de percepção dos educandos, de sua visão do mundo, que Freire considera possível organizar um conteúdo libertador.
A temática das questões do dia-dia a dia do educando devem ser o grande conteúdo a ser aprofundado no processo formativo.

7. Mergulho na Comunidade
A realidade imediata vai sendo inserida em totalidades mais abrangentes, revelando ao educando que a realidade local, existencial, possui relações com outras dimensões: regionais, nacionais, continentais, planetária e em diversas perspectivas: social, política, econômica que se interpenetram. A localidade do educando é, dessa forma, o ponto de partida para a construção do conhecimento do mundo. Fazer os educandos falarem a partir de seu território, do seu lugar de vida, convivência, trabalho, relações sociais, e, num movimento solidário, dialético e dialógico, ir permitindo que eles desvendem o local e o universal, denominem o mundo e se comprometam com as ações necessárias à construção do mundo novo, com justiça social e sustentabilidade.

8. Recursos
Podemos lançar mão de diversos recursos para conhecer o “estar sendo no mundo” dos educandos através de conversas informais, documentos, registros sistematizados que representem a história local através de cartazes, folhetins, notícias em jornais, diários etc.), vídeos, fotografias, desenhos, peças de teatro, de marionetes, descrição de um dia na comunidade (o que fazem, por onde passam, o que vêem, com quem conversam...), depoimentos de outros moradores da região, filmes que desencadeiem discussões, cartazes (murais, varais) etc.

Um comentário:

Camilla para os menos íntimos... disse...

muito bom! eu gosto de Paulo Freire, deixou grande contribuição no mundo! e pau no c... de não gosta! rsrs!
beijos freirianos!